Entenda como sanção dos EUA fragilizam economias como Irã e Venezuela

Alvos recentes de ações militares dos Estados Unidos, Irã e Venezuela também têm em comum as sanções econômicas aplicadas pela Casa Branca aos dois países. Estudos apontam que cercos econômicos prolongados têm sido cada vez mais utilizados como arma de política externa para pressionar ou derrubar determinados governos. 

No caso do Irã, há também sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU contra o programa nuclear de Teerã. Na raiz dos protestos que sacudiram o país persa nas últimas semanas está a desvalorização de 50% da moeda iraniana e uma inflação oficial de 42% em 2025. 

Para entender como essas sanções fragilizam as economias dos dois países, a Agência Brasil  conversou com especialistas e analisou estudos científicos e relatórios das Nações Unidas (ONU) sobre o tema. 

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Economista Juliane Furno – Paulo Pinto/Agência Brasil

A economista e socióloga Juliane Furno, professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), lembra que as sanções contra o Irã foram aprofundadas pela ONU em setembro de 2025, após a guerra de 12 dias iniciada por Israel.  

“O agravamento das sanções, basicamente, impede ou dificulta a entrada de dólares no país. Tanto pelas sanções diretas, quanto pela dificuldade operacional do Irã em acessar o sistema financeiro internacional”, diz a economista. 

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As sanções ao Irã são diversas e bloqueiam ativos do país no exterior; dificultam as transações financeiras internacionais; proíbem quase todo o comércio do Irã com EUA e punem empresas de qualquer país que fazem investimentos acima de US$ 20 milhões no setor energético da nação. 

Juliane lembra que o bloqueio econômico tem origem anterior: começou em 1979, logo após a Revolução Iraniana que tirou um governo aliado de Washington do poder. As medidas causam uma expressiva desvalorização do rial, a moeda iraniana. 

“Se a moeda se desvalorizava, um dos principais e imediatos efeitos é a inflação. Por isso há, de fato, uma deterioração das condições de vida dos iranianos”, completou a economista.   

Dono da terceira maior reserva de petróleo comprovada do planeta e quinto maior produtor de hidrocarbonetos do mundo, o Irã ainda é dependente das exportações de petróleo, apesar de ter uma economia bem mais diversificada que a venezuelana. 

Documentos do próprio Congresso norte-americano, classificam as medidas contra o Irã como “o conjunto de sanções mais extenso e abrangente que os Estados Unidos mantêm contra qualquer país”.  

Impactos sobre a indústria petroleira 

A relatora especial da ONU sobre os impactos das sanções para os direitos humanos, Alena Douhan, publicou em julho de 2024 relatório sobre as consequências econômicas e sociais do bloqueio econômico ao Irã.   

A especialista afirma que existe correlação entre a imposição de sanções e o desempenho econômico do país, “devido, em particular, às restrições comerciais e financeiras ao setor energético iraniano, que é a fonte de renda mais significativa do país”.  

“Cerca de metade do orçamento fiscal do governo depende exclusivamente das exportações de petróleo e outros líquidos”, aponta. 

Douhan destaca que, com a suspensão parcial das sanções em 2015, o país conseguiu aumentar as exportações de 700 mil a 1,4 milhão, na média entre 2010 a 2015, para 2,5 milhões de barris por dia entre 2016 e 2018. 

“Com a reimposição das sanções dos Estados Unidos [em 2019], as exportações caíram para menos de 500 mil barris por dia em julho de 2020. Somente em 2018 e 2019, as exportações de petróleo diminuíram 57%”, afirmou a relatora da ONU. 

Douhan pede à suspensão – total ou parcial – das sanções devido aos efeitos sociais e nos direitos humanos dos iranianos. 

“[O embargo econômico] levou à redução das receitas do Estado e ao aumento da pobreza e exacerbou as desigualdades socioeconômicas existentes, resultando em recursos insuficientes para garantir as necessidades básicas das pessoas de baixa renda e de outros grupos vulneráveis”, afirmou. 

Inflação e impactos na saúde

Vista de Teerã – Majid Asgaripour/Wana via Reuters/proibida a reprodução

A especialista Alena Douhan demonstra que o nível dos preços oscila de acordo com a imposição ou relaxamento das sanções econômicas. Depois de apresentar uma média de 23,8% entre 2011 e 2015, a inflação caiu para 7,2% e 8% em 2016 e 2017, após acordo que reduziu a intensidade do bloqueio. Segundo ela, desde o retorno das sanções em 2018, os preços gerais no país subiram 85% e o custo dos dos alimentos dobrou. 

A classe média vem encolhendo nos últimos anos, em parte, devido à política de sanções. Estudo da Revista Europeia de Economia Política El Sevier, de dezembro de 2025, calculou que as sanções levaram a uma redução média anual de 17 pontos percentuais no tamanho da classe média iraniana entre 2012 e 2019.   

Já outra pesquisa da revista inglesa The Lancet apontou que as sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU interromperam as importações de medicamentos essenciais, causando aumentos de preços de até 300% em alguns antiepilépticos.  

“[Houve] reduções consideráveis na disponibilidade de 13 dos 26 medicamentos essenciais para doenças não transmissíveis e mais de 6 milhões de pacientes com doenças não transmissíveis ficaram sem acesso a tratamento de alta qualidade”, diz a publicação. 

Os Estados Unidos e a ONU 

A Casa Branca sustenta que as sanções contra o regime de Teerã são necessárias devido a violações de direitos humanos e suposto apoio ao “terrorismo”. O objetivo seria forçar o Irã a desmantelar seu programa nuclear, que Teerã alega ser para fins pacíficos. 

No caso da ONU, as sanções são justificadas como forma de pressionar o governo a adotar medidas que impeçam o desenvolvimento de armas nucleares.  Para os críticos, as justificativas são pretextos para mudar um regime político que se contrapõe à hegemonia de Israel e do Ocidente no Oriente Médio. 

Professor Bruno Lima Rocha. Foto: Arquivo Pessoal – Arquivo pessoal

O cientista político, professor de relações internacionais e jornalista da HispanTV Brasil, Bruno Lima Rocha, avalia que os Estados Unidos não têm compromisso com a democracia. 

“Se assim fosse se colocariam contra monarquias absolutistas, como a da dinastia destronada dos Pahlavi (no próprio Irã) ou os monarcas da Península Arábica. O tema de fundo é a posição do Irã contra o imperialismo e em defesa da Palestina”, destacou. 

Para o especialista, a justificativa de barrar o programa nuclear é uma falácia. “O país é signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP) de Armas Nucleares e não tem ogiva alguma. Israel não assinou o TNP e tem um arsenal que não se sabe nem o tamanho nem o alcance”, completou.   

Impactos das sanções no mundo 

Estudos recentes demonstram que os impactos econômicos e sociais das sanções equivalem a guerras tradicionais. 

Artigo publicado na influente revista científica The Lancet Global Health calculou que as sanções unilaterais estão associadas a cerca de 560 mil mortes por ano, “semelhante à carga global de mortalidade associada a conflitos armados”.  

A revista Estudos de Desenvolvimento, da editora acadêmica Taylor & Francis, do Reino Unido, calculou que as sanções podem reduzir a expectativa de vida em cerca de 0,4 a 1,4 anos, a depender da sua intensidade. 

“Além disso, encontramos evidências de que as mulheres são afetadas mais severamente pela imposição de sanções” A publicação cita ainda o  aumento da mortalidade infantil e das mortes por cólera, bem como a diminuição dos gastos públicos com saúde. 

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